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O avanço dos medicamentos à base de GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade e do diabetes, vem provocando mudanças que vão além da indústria farmacêutica. Um levantamento da Scanntech aponta que o consumo das chamadas canetas emagrecedoras, considerando os mercados formal e informal, aumentou 239% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior.
A pesquisa, realizada com 2 mil consumidores, estima que cerca de 6% da população adulta brasileira já utiliza medicamentos dessa classe terapêutica. Entre esses usuários, 29% relataram perda de massa muscular, fator que tem impulsionado a busca por suplementos ricos em proteínas, fibras, vitaminas e minerais para complementar o tratamento.
Segundo Priscila Ariani, diretora de marketing da Scanntech, a alta nas vendas de seringas de insulina acima da evolução esperada para o tratamento do diabetes indica que parte significativa das aplicações de GLP-1 pode estar ocorrendo fora do mercado formal. A executiva estima que mais da metade das doses em circulação desde o último trimestre de 2025 esteja sendo consumida fora das farmácias.
Proteínas, fibras e vitaminas lideram crescimento
Os reflexos desse novo comportamento já aparecem nas vendas da categoria de suplementos. Dados da Scanntech mostram que a demanda por suplementos proteicos cresceu 9,1%, enquanto a categoria de vitaminas registrou expansão de 7,4%.
Para Aline Goettert, diretora-executiva da Associação Brasileira de Suplementos Alimentares (Brasnutri), a suplementação deixou de atender predominantemente praticantes de atividades físicas e passou a contemplar pacientes que precisam preservar massa muscular, manter o aporte nutricional e cuidar da saúde intestinal durante o processo de emagrecimento.
Essa mudança também alterou o perfil de desenvolvimento de novos produtos. Na Pronutrition, empresa especializada na fabricação de suplementos para terceiros, aproximadamente 40% dos projetos atualmente em desenvolvimento estão voltados ao aumento da oferta de proteínas. Já as solicitações para formulações enriquecidas com fibras cresceram mais de seis vezes entre 2025 e 2026.
Indústria amplia investimentos e adapta portfólio
O novo cenário levou fabricantes a revisarem suas estratégias comerciais e de inovação. Na Pronutrition, metade dos 45 suplementos já regulamentados pela Anvisa recebeu o selo GLP-1 Support, criado para identificar produtos direcionados aos consumidores que utilizam esses medicamentos.
Entre os 40 lançamentos previstos para este ano, cerca de 28% serão destinados especificamente a esse público. A empresa também prepara uma expansão industrial em Valinhos (SP), com a construção de uma nova fábrica de 8,5 mil metros quadrados. A expectativa é crescer 20% em 2026 e ampliar significativamente sua capacidade produtiva.
Maxinutri acelera expansão da produção
Na Maxinutri, o crescimento da demanda também já impacta os resultados financeiros. De acordo com o fundador e presidente da companhia, Fernando Ferdinandi, as linhas mais procuradas por usuários de GLP-1 apresentaram aumento superior a 10% no faturamento.
A empresa encerrou 2025 com receita de R$ 345 milhões e identifica oportunidades principalmente nas categorias de proteínas, vitaminas e fibras. Entre os destaques está a vitamina B12, segmento em que a companhia afirma deter aproximadamente 45% de participação de mercado.
Além de novos produtos, como versões líquidas da vitamina B12, cappuccinos proteicos e suplementos enriquecidos com fibras, a empresa também investe na expansão da capacidade industrial. Atualmente produz 2,6 milhões de unidades por mês e pretende elevar esse volume para 4,5 milhões de unidades mensais após a conclusão das obras previstas para dezembro.
Segundo a companhia, seus produtos já estão presentes em cerca de 83 mil das 94 mil farmácias brasileiras.
Mudanças no paladar influenciam novos lançamentos
O uso de medicamentos da classe GLP-1 também vem alterando as preferências de sabor dos consumidores. A Dobro identificou que muitos usuários passaram a rejeitar suplementos excessivamente doces devido às alterações no paladar e à redução do apetite provocadas pelos tratamentos.
Como consequência, sabores tradicionais, como chocolate, baunilha e caramelo, vêm perdendo espaço para versões à base de frutas, incluindo maracujá, tangerina, frutas vermelhas e frutas amarelas.
A empresa chegou a cancelar o lançamento de uma creatina sabor chocolate e baunilha para priorizar novas formulações com sabores frutados, além de investir em embalagens menores para acompanhar o novo padrão de consumo. Após faturar R$ 40 milhões em 2025, a expectativa é atingir R$ 50 milhões em 2026.
Mercado cria novas oportunidades para suplementação
Na avaliação da Brasnutri, o avanço dos medicamentos para obesidade representa uma transformação estrutural do mercado, criando espaço para categorias voltadas à preservação da massa muscular, reposição de proteínas, consumo de fibras, vitaminas, minerais e suporte nutricional durante a perda de peso.
Farmácias lideram vendas de suplementos
O varejo farmacêutico também consolida sua posição como principal canal de comercialização da categoria. Pesquisa do Instituto Febrafar de Pesquisa e Educação Corporativa (IFEPEC) mostra que 48% dos consumidores compram suplementos em farmácias e drogarias, percentual superior ao registrado por marketplaces e e-commerce (24%), supermercados (15%) e lojas especializadas (8%).
De acordo com Edison Tamascia, presidente da Febrafar, o interesse crescente da população por saúde, longevidade, bem-estar e qualidade de vida transformou os suplementos alimentares em uma das categorias mais estratégicas para toda a cadeia da saúde.
Consumo faz parte da rotina dos brasileiros
O estudo também mostra que a suplementação já integra o dia a dia da população. Entre os entrevistados, 44% afirmam consumir suplementos diariamente e outros 21% fazem uso quase todos os dias. Além disso, 82% pretendem continuar utilizando esses produtos nos próximos seis meses.
O levantamento indica ainda que 43% dos consumidores utilizam suplementos entre um e dois anos, enquanto 29% mantêm esse hábito há mais de dois anos. Apenas 15% começaram a consumir esses produtos nos últimos seis meses.
Para o setor farmacêutico, os números reforçam o protagonismo das farmácias como principal ponto de acesso à suplementação, consolidando seu papel na orientação, prevenção e promoção da saúde.